24 março 2013

Reestruturação do roteiro de “O dia em que Dorival encarou a guarda”




    A câmera nos revela uma delegacia militar através de um militar do exército fazendo guarda.
    Dentro da delegacia militar podemos ver paredes verdes com branco e um outro militar só que desta vez andando pelos corredores como quem vigia detentos. Ao passar por uma das celas o militar escuta uma voz vinda de uma das celas.


    DORIVAL: Ô Praça, vem cá. Aqui, ó.

    O militar vai até a cela de onde vinha a voz e escuta o detento que nos será apresentado brevemente.


    DORIVAL: Ô Praça, seja camarada: me leva até o banheiro e me deixa tomar um banho. Eu tou derretendo aqui dentro.


    PRAÇA: Não pode.


    DORIVAL: Não pode por quê? Eu não consigo dormir com esse calor.

    PRAÇA: São ordens.

    DORIVAL: Ô meu chapa, não custa nada. Faz dez dias que eu não tomo banho. Eu tô sufocando. Num instante eu tomo uma ducha, não custa nada.

    PRAÇA: Não pode.

    O detento se revolta pelo fato de suas justificativas serem inválidas segundo o militar, logo o nosso detento se estressa e quer saber o motivo de não poder tomar o seu banho.

    DORIVAL: Porra, mas isso é idéia fixa. Por que não pode, caralho?

    PRAÇA: Ordens.

    DORIVAL: E quem deu a ordem?

    PRAÇA: O cabo.

    O detento vê que discutir o assunto com o soldado - aquele que segue ordens do cabo - é perca de tempo então manda chamar o seu superior direto, o Cabo.

    DORIVAL: Então vai chamar o cabo que eu quero falar com ele.

    O louco não tem voz, Dorival tem que aceitar as ordens impostas à ele.

    PRAÇA: Chamo nada. Vai pro teu catre e fica quieto.

    O Detento discrimina o soldado e este o ameaça.

    DORIVAL: Escuta aqui, ô catarina, barriga verde, barata descascada, polaco comedor de sabão: Tu vai chamar esse cabo porque senão eu vou começar a gritar, a berrar, e dar porrada aqui dentro. Vou fazer um escândalo tão grande, mas tão grande, que vou acordar o cabo, a mãe do cabo, e até o general dessa bosta aqui. E não pensa que eu tô brincando não, catarina, porque eu vou começar a fazer isso agora mesmo.

    Após o delírio do cabo - as cenas que assimilam Dorival ao King Kong - entramos em uma cena de um caubói resgatando uma moçinha e o surgimento de um índio, logo percebemos que esta cena era o que o Cabo imaginava ao ler uma espécie de história em quadrinhos. O Soldado entra na sala gritando pelo Cabo.

    PRAÇA (V.O.): Cabo! Cabo!

    CABO: Qualé?

    PRAÇA: É o preso da cela quatro.

    CABO: Qualé?

    PRAÇA: Quer falar com o senhor, meu cabo.

    CABO: Qualé, qualé, rapaz?

    PRAÇA: Ele diz que vai armar um escândalo, que vai começar a gritar. Aliás, já começou. E é um negão desse tamanho, parece o King Kong.

    O Cabo questiona o intelecto do soldado.

    CABO: Um negão desse tamanho... Porra, catarina, tu vem interromper a minha leitura pra dizer que um negão desse tamanho, numa cela trancada a chave, começou a gritar, rapaz?

    PRAÇA: Mas cabo, eu não sabia se eu-

    O Cabo demonstra ter uma visão melhor da situação em relação ao Soldado Catarina.

    CABO: Tu não sabe de nada mesmo. Deixa que eu vou lá pra dar um jeito no negão desse tamanho.

    PRAÇA: Qualé, ô?

    Dorival fala com “jeitinho” pra ver se consegue persuadir o Cabo.

    DORIVAL: Cabo, eu queria pedir licença pra tomar um banho. É coisa rápida. Faz dez dias que não me deixam tomar banho. Mas hoje tá insuportável, palavra.

    O Cabo não se mostra tocado e questiona Dorival se ele sabe que está em uma prisão como prisioneiro, logo é privado de direitos.

    CABO: Tu sabe onde tu tá, ô cara?

    DORIVAL: Sei cabo, mas-

    O Cabo exige que sua superioridade seja relembrada ao falar e portanto corrige o detento.

    CABO: Senhor cabo!

    DORIVAL: Senhor cabo. Acontece que eu-

    O Cabo “desce do salto” e com preconceito explana a situação que Dorival parece não perceber.

    CABO: Acontece que tu tá em cana, crioulo, e malandro que é malandro chia mas não geme. Agora cala essa matraca e vai dormir.

    DORIVAL: Mas cabo-

    CABO: Senhor cabo, já disse!

    Mais uma vez o detento agride verbalmente os militares com a sua frase característica.

    DORIVAL: Cabo e merda pra mim é a mesma coisa.

    Dorival continua os insultos e mais uma vez não pede, ordena.

    DORIVAL: Viado. Tu não me engana com essa pinta, não. Teu negócio é dar o rabo pros recruta. Eu aposto que quem te enraba é esse catarina aí. Agora abre essa bosta que eu quero tomar banho.

    O Cabo já está ficando saturado com a situação e passa a se portar de forma tão desbocada e preconceituosa como o prisioneiro.

    CABO: Macaco não toma banho. E não me faça perder a paciência, crioulo, senão eu abro essa jaula e te mostro com quantas bananas se faz um piquenique.

    DORIVAL: Então abre. Abre! Abre ô boneca de catarina!

    O Cabo mais uma vez nos remete a questão da hierarquização.

    CABO: Tu tá com sorte, negão. Só não abro essa josta aí porque tenho ordens pra não abrir.

    Dorival acha aquilo uma babaquice e questiona o grau de conhecimento do Cabo quanto ao conhecimento advindo de sua hierarquia.

    DORIVAL: Ordens? Que ordens?

    CABO: Ordens, pomba!

    DORIVAL: Ordens de quem?

    CABO: Não interessa. Ordens são ordens.

    Dorival percebe que o Cabo é tão desinformado como o soldado e exponhe tal opinião e forma ofensiva para com o Cabo.

    DORIVAL: Tu é tão pé-de-chinelo que não sabe nem de quem recebe ordens?

    O Cabo tenta esbanjar conhecimento militar e hierárquico ao Dorival.

    CABO: E tu é tão buro que não sabe que cabo recebe ordem de sargento, ô?

    Dorival não se importa com aquilo e manda chamar o superior direto do Cabo, o Sargento.

    DORIVAL: Então vai chamar o sargento.

    O Cabo acha graça pois Dorival parece não saber com quem está mechendo.

    CABO: Tu tá doido, crioulo!

    DORIVAL: Olha aqui, ô boneca: Tu vai chamar esse sargento, porque senão eu vou fazer um escândalo tão grande nessa merda que vão te rebaixar pra recruta outra vez. E aí, babau, viu? Não vai ter catarina interessado em comer rabo de recruta. Vai chamar o sargento!

    CABO: Tu vai entrar por um cano, crioulo...

    O Cabo não aguenta e resolve chamar o Sargento pra tomar conta da situação.
    Entramos em uma cena carnavalesca e logo conhecemos a personagem Ana Neusa que está em um telefone público - em uma festa de rua - falando com o Sargento que está na sua sala.

    ANA NEUSA: Benhê! Eu não tô te ouvindo direito.

    SARGENTO: Não vai dar, eu tô de serviço a noite toda.

    ANA NEUSA: Não vai dar? Mas tu não falou com o tenente?

    SARGENTO: Não adianta, eu peguei serviço, são ordens.

    ANA NEUSA: O quê? Mas o Ademar falou que tu já perdeu muito ensaio. Ele vai ter que botar outro no surdo.

    SARGENTO: (Puta merda!) Azar, amanhã eu acerto isso com o Ademar.

    ANA NEUSA: O quê? O quê que tem o Ademar?

    SARGENTO: Nada! Amanhã eu falo com ele.

    Ana Neusa demonstra estar interessada em um homem que parece estar lhe encarando na festa.

    ANA NEUSA: Benhê...

    O Cabo entra na sala do sargento e este acena para que ele aguarde pois está em uma ligação.

    CABO: Dá licença, sargento?

    O Sargento retoma sua atenção ao telefonema.

    SARGENTO: O quê, Ana Neusa?

    Ana Neusa já conformada encerra a ligação, ela já parece ter algo em mente agora que está certa da ausência do Sargento

    ANA NEUSA: Nada. Um beijo.

    SARGENTO: O quê, negrinha?

    O Sargento olha para o telefone e o desliga, como estivesse incomodado com a interferência na mensagem - gramaticalmente falando. O Sargento agora dá atenção ao seu subordinado imediato, o Cabo. O Soldado apenas permanece ao lado direito - em um plano atrás - do Cabo.

    SARGENTO: Qual é o problema?

    CABO: Sarja, o crioulo da cela quatro tá a fim de bagunçar o coreto. Digo, desculpe, sarja, o preso da cela quatro.

    O Cabo explana o ocorrido mas percebe que o preconceito praticado contra o prisioneiro poderia atingir o seu superior e por isso se corrige.

    SARGENTO: Que que ele quer?

    CABO: Quer tomar banho.

    SARGENTO: Não pode.

    CABO: É, eu disse pra ele.

    SARGENTO: Então? Assunto encerrado.

    O Sargento , assim como o Cabo, possui uma visão superior ao do seu subordinado e não exita em cogitar a resolução do problema que neste caso é nada à fazer pois já está tudo feito.

    CABO: É, mas ele diz que vai armar um escândalo, começar a gritar, né?

    O Sargento e o Cabo começam a discutir sobre o ocorrência.

    SARGENTO: A essa hora da noite?

    CABO: É, o senhor vê.

    SARGENTO: Mas tu disse que ele não pode tomar banho?

    Aqui começa uma espécie de pensamento existencial quanto as ordens dadas.

    CABO: Disse, ele tem ordens pra não tomar banho.

    SARGENTO: Ele não tem ordens pra não tomar banho. Existem ordens para que ele não tome banho.
    CABO: Pois é. Ordens são ordens, né?

    O Cabo demonstra não ter compreendido a questão lógica que ali foi abordado pelo Sargento e então justifica o que foi dito com base nas condições hierárquicas.

    SARGENTO: Ele ameaçou gritar?

    O Sargento começa a cogitar tomar alguma providência e então o Cabo e o Praça/Soldado iniciam as argumentações que possivelmente ajudarão o Sargento a fazer algo - retórica.

    CABO: Ameaçou.

    PRAÇA: Ameaçou.

    Mais uma vez ocorre a cena do preconceito racial seguido de desculpas por respeito a hierarquia.

    CABO: É um baita dum negão deste tamanho. Desculpe, sarja. Tem um vozeirão que vou te contar, ô, se começar a gritar se ouve lá na escola de samba.

    A sonorização desta cena, o foco no rosto do Sargento e a sua expressão facial demonstrará que ele está decidido à fazer algo e que foi remetido a festa em que Ana Neusa estava presente e ele não.

    Mais uma vez a cena já construída se repete de forma recursiva. Temos um militar que chamou o seu superior direto pra resolver a situação e este tenta resolver com Dorival. Como já vimos antes, não irá dar certo e mais uma vez haverá questionamento das ordens, ofensas e mais uma vez a chamada do próximo superior direto.

    SARGENTO: Não pode.

    DORIVAL: Não pode por quê?

    SARGENTO: Não pode porque são ordens.

    DORIVAL: Mas ordens de quem, porra?

    SARGENTO: Não interessa.

    Dorival muda a sua abordagem respeitosa para algo mais malandro.

    DORIVAL:  Ô, sargento... Será que não dá pra esquecer essas ordens só por um minutinho? Eu tomo uma ducha num instante. Faz dez dias que eu-

    SARGENTO: Eu já disse que não pode. Chega de papo. Ordens são ordens. Amanhã a gente fala nisso.

    DORIVAL: Mas amanhã tem outro na guarda.

    SARGENTO: Então, outro dia.

    DORIVAL: Ah, tu tá é com medo!

    SARGENTO: Vai dormir que isso passa, rapaz. Não procura sarna pra se coçar. Meu lema é o seguinte:

    DORIVAL: Tu não tem lema. Pau-mandado não tem lema.

    SARGENTO: Olha aqui, rapaz. Devagar. Relaxa. Não tenho nada
    contra ti, mas eu sou sargento aqui e posso muito bem-

    DORIVAL: Sargento e merda pra mim é a mesma coisa.

    Agora temos uma referência explicita ao filme Casa Blanca onde neste temos dois personagens, Rick e Sam, ambos parecem estar sendo dublados respectivamento pelo Sargento e Dorival, que ainda mantém a discussão acesa.

    RICK/SARGENTO: Olha crioulo que eu posso te dar um pau.

    SAM/DORIVAL: Então vem!

    RICK/SARGENTO: Eu sou um cara de paciência, moreno.

    SAM/DORIVAL: Por que não me deixa tomar um banho?

    RICK/SARGENTO: Não pode!

    SAM/DORIVAL: Mas por quê?

    RICK/SARGENTO: Já disse.

    SAM/DORIVAL: E quem deu essa ordem?

    RICK/SARGENTO: Não é da tua conta.

    SAM/DORIVAL: Então eu vou começar a berrar aqui dentro.

    RICK/SARGENTO: Berra pra tu ver.

    Descobrimos que a cena do Casa Blanca está sendo transmitida em uma televisão na sala em que o Tenente está, o Tenente estaria assistindo o filme. O Sargento bate a porta.

    TENENTE: Entra!

    SARGENTO: Com licença, tenente?

    TENENTE: O que há, sargento?

    SARGENTO: Tem um preso fazendo confusão. Quer tomar banho.

    TENENTE: A essa hora?

    SARGENTO: É que ele não toma durante o dia.

    TENENTE: Por quê?

    SARGENTO: Ordens.

    O Tenente é mais novo que o Sargento o que sugere a uma abordagem moderna quanto a situação e esta ideia é comprovada pela posição de mão que o Tenente assume ao refletir sobre o ocorrido.

    TENENTE: Ele tem ordens de não tomar banho só durante o dia?

    SARGENTO: Não está especificado, tenente.

    TENENTE: Acho que, se não pode de dia, também não pode de noite.

    SARGENTO: Assim me parece, tenente.

    Mais uma vez acontece a cena da quebra de hierarquia onde o subordinado exige ao seu superior imediato que algo seja feito e este declara o assunto como resolvido e como já vimos isso resultará em mais uma discussão do superior com o Dorival.

    TENENTE: Então está resolvido o caso.

    SARGENTO: É que ele tá querendo confusão mesmo, tenente. Tá ameaçando gritar e acordar todo o mundo e tal e coisa...

    TENENTE: Mas quem é esse preso?

    SARGENTO: O nome dele é Dorival.

    DORIVAL: Me diz uma coisa, tenente, sinceramente: o senhor sabe quem deu essa ordem?

    TENENTE:  Vou te dar um conselho pro teu próprio bem, rapaz: vai dormir. Tu tá nervoso. Amanhã isso passa.

    DORIVAL: Se não diz é porque não sabe.

    TENENTE: Amanhã eu converso com o capitão sobre o teu banho.

    DORIVAL: Se não sabe quem deu a ordem e obedece, é um boneco. Não é um homem, é um boneco.

    TENENTE:  Me respeita, negro! Me respeita!

    DORIVAL: Tenente e merda pra mim é mesma coisa.

    Aqui ocorre o plot-twist (quebra da estrutura esperada), Dorival cospe na cara do Tenente.

    TENENTE: Cafre miserável, eu vou te dar uma lição!

    TENENTE: Alto, alto! Sargento...

    SARGENTO: Sim, tenente.

    TENENTE: Tem a chave dessa cela?

    SARGENTO: Sim senhor, tenente.

    TENENTE: Abra. Sargento!

    SARGENTO: Tenente.

    TENENTE: Espere um pouco. Traga reforços.

    SARGENTO: Sim senhor, tenente. Quantos homens?

    TENENTE: Bom... dois. Dois bastam.

    Dorival ri da situação pois já percebeu que os militares estão completamente perdidos pela falta de averiguação nas ordens dadas.

    DORIVAL: Tenente, quer saber quem deu a ordem?

    Dorival diz o porque da situação está ocorrendo - demonstrando superioridade através do conhecimento dos ocorridos naquela instituição.

    DORIVAL: Foi o carcereiro. Porque não vai com a minha cara. Na verdade, não existe ordem nenhuma. É só conferir pra ver. Vocês são mesmo uns pau-mandado, heim? Ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah...

    O Tenente parece se enfurecer mais ainda pelo fato de Dorival, de fato, saber mais do que ele.
    Com muita arrogância, abuso de poder e raiva, o Tenente dá a ordem punição ao Dorival.

    SARGENTO: Vamos dar uma lição neste insubordinado. Que ninguém use arma de fogo sem receber voz de comando. É só umas porradas pra ele aprender a respeitar a autoridade.

    TENENTE: Muito bem. Abra.

    SARGENTO: Tu tá fodido, negrão.

    DORIVAL: Ah... Milico e merda pra mim é a mesma coisa!

    Dorival dá um grito como se indicasse o início de uma batalha.

    TENENTE: Segurem esse cafre! Batam! Com força!

    Neste momento vemos os pensamentos que os militares tiveram - cena do King Kong, Caubói e bateria da escola de samba - se tornarem em algo cruel graças ao fundo musical e as cenas de espancamento do Dorival.

    TENENTE: Limpem o sangue.

    O Tenente parece ter percebido o tamanho de sua crueldade pela forma com que ele diz para que os seus subordinados limpem o sangue de Dorival e pela forma que ele sai.

    Agora, na cena final, vemos Dorival machucado e caído no chão do banheiro tomando o seu banho, apesar de tudo, com um sorriso por ter conquistado o que tanto queria. O Sargento parece ter recebido a ordem de vigia-lo mas o mesmo sabe que esta tarefa  não se fazia necessária, haja visto o estado de Dorival que mau conseguia se levantar. O Sargento acende um cigarro para ele e outro para Dorival e então o filme se encerra.